Sempre me perguntam: “Qual é o seu vinho favorito?”. E eu gosto de responder a pergunta com outra pergunta: “Pra qual ocasião?”. Com tanta variedade de vinhos pelo mundo, acho injusto escolher somente um e bitolar nele. Nada contra quem tem seus vinhos favoritos e não abre mão deles (mentira, acho desperdício).

FOTOS: Paulo Cuenca – Instagram: @paulocuenca

Brasileiro possui uns preconceitos bem interessantes com relação ao mundo do vinho: macho que é macho só toma vinho tinto encorpado (já falei disso aqui), mulher só bebe vinho doce e/ou leve, vinho alemão não presta, espumante é só pra casamento e Ano Novo e vinho rosé ou rosado é um mistureba porcaria.

Aliás, oferecer vinho rosado para clientes e amigos nunca foi uma tarefa fácil. Homem ou mulher, a grande maioria das pessoas me olhava com aquela cara de “Ok, daqui a pouco você vai me convencer a usar uma camiseta da Hello Kitty também, né…”. Certa vez, convenci uma mesa de clientes fashionistas a provarem uma garrafa de vinho rosado dizendo somente “Gentem! Vinho rosado é a última moda em Nova Iorque! Vocês não estão entendendoam!” (eu não escrevi errado… foi dessa forma mesmo que eu falei). E eu juro para vocês que eles beberam não só uma, mas três garrafas de um vinho rosado da África do Sul que tínhamos no cardápio e amaram! Condicionados pelo modismo ou não, eles saíram super agradecidos (e bêbados) pela minha indicação.

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Bom, vocês estão vendo que o calor do nosso país não é brincadeira e refrescar é necessário! O vinho espumante já é um velho conhecido dos brasileiros, principalmente com a ótima produção nacional. O vinho branco, a cada dia que passa, tem conquistado mais e mais espaço na adeguinha dos brasileiros. Mas… e o rosé, gente?

As garrafas de vinho rosé que chegavam ao Brasil no passado eram de baixíssima qualidade e, sim, muitas eram um subproduto do vinho tinto e a grande maioria era doce. Porém, já faz muitos anos que milhares de produtores pelo mundo produzem e comercializam diversos tipos de vinhos rosados de altíssima qualidade, com garrafas passando da casa dos R$100,00.

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Os vinhos rosados são produzidos a partir das uvas tintas e boa parte das uvas tintas dão excelentes vinhos rosados. Podemos ter rosados de Cabernet Sauvignon, Merlot, Syrah, Agiorgitiko, Baga, Malbec, Touriga Nacional… Depende da origem. Existem duas formas de se produzir um vinho rosado: deixando as cascas das uvas (da onde vem todo o pigmento do vinho) em contato com o mosto durante um período curto de tempo ou pelo método de “sangria” do tanque de fermentação, no qual retira-se o líquido que está no fundo do tanque e, portanto, em pouco contato com as cascas das uvas. Geralmente os vinhos feitos pelo método de sangria são considerados um produto inferior.

Os mais tradicionais são os vinhos rosados da região da Provence, que são bem leves no paladar, possuem uma acidez bem fraquinha, são bem frutados e tem uma coloração puxando para o salmão. Mas essa característica vai variar muito de acordo com a região e o estilo do produtor. Por exemplo, na argentina é bastante comum encontrarmos vinhos rosados (sim, até o machões argentinos produzem vinhos rosados) com uma coloração mais escura, parecendo um “clarete”, um vinho bordalês que era bem mais fraquinho e era largamente exportado para o Reino Unido entre os séculos 12 e 15. Existem outros vinhos rosados que ficam com uma cor lindíssima pink!

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Bom, comentários de menininha à parte, há no mercado brasileiro uma infinidade de vinhos rosados, para todos os gostos. Vinho para machões, para mocinhas e vinhos para aqueles que simplesmente apreciam um bom vinho e ponto.

O vinho que escolhi para degustarmos foi um Sancerre 2011, do Domaine Varinelles, da região do Loire. O Loire, a rota dos lindos castelos da França, produz excelentes vinhos rosados. O que degustamos foi feito com a uva Pinot Noir, bastante leve, com a acidez muito parecida com a de um vinho branco de Sauvignon Blanc (na medida!), com notas de pitangas e pêssegos nos aromas e elaborados para serem consumidos gelados. Eu recomendo muito provar uma garrafa de um bom vinho rosado, com um prato de camarão à provençal, em algum lugar com vista para o mar…

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O queijo que degustamos foi mais uma das minhas aventuras pelo maravilhoso, e bizarro, mundo dos queijos franceses. Tá esquisito na prateleira? É meu! Eu simplesmente adoro ver a cara da galera olhando para o queijo enquanto pensa se encara a dor de barriga. Apesar dos meus parceiros de degustação serem destemidos, isso não impede que eles questionem minhas escolhas. “Ixi! Tá mofado, olha!”. Ah, vá! Desde quando agora mofo nos queijos aqui na França quer dizer que não dá pra comer? O queijo em questão é o Banon, um queijo de cabra originário dos Alpes do Rhône, que vem embaladinho em folhas secas de castanheira e amarrado com fibra de rafia, uma árvore da família das palmeiras. Ao abrir, nova estranheza. Tinha uma casca bem estranha, daquelas que você pensa muito se deve comer ou descartar (vai que dá fungo na unha, né?). Como todos os queijos de cabra curado, este também tinha um sabor ácido e o interior macio. A folha de castanheira passou um pouco de suas características para o queijo, mas depois de pesquisar um pouco, eu descobri que o queijo que comemos estava ainda jovenzinho e seria melhor ter deixado amadurecer mais um pouco para desfrutarmos-lo melhor. Quer dizer, tinha que estar mais mofadinho. Resumo da ópera: apesar de não ter sido a grande estrela da noite, eu pretendo provar um Banon novamente.

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Então, voltando à grande questão inicial de “Qual o meu vinho preferido?”, agora, eu respondo: depende. Se for verão, tiver um queijo de cabra dando sopa na geladeira, ou um pratão de camarão salteado no alho com muita salsinha, meus amigos estiverem em casa comigo pra jogar papo fora e eu estiver perto do mar… meu vinho preferido é sem dúvidas um vinho rosé!