Eu comecei a aprender sobre vinhos ainda bem jovem, aos 19 anos, quando entrei na faculdade. Desde então, todos os profissionais que cruzaram o meu caminho foram pessoas sérias, formais e engravatadas e que sempre deixavam aquela impressão de que apreciar um bom vinho seria algo somente acessível aos intelectuais. Quase dez anos depois eu posso dizer que esse pensamento entre os profissionais do vinho não mudou muito. O vinho se tornou um produto arrogante para os brasileiros, um produto de luxo para pessoas mais velhas, algo para impressionar as visitas. Cansei de ver amigos recusarem uma taça porque “Ah, eu não sei beber essas coisas…”. Mas, honestamente? Nem precisa…

Desde então eu sempre quis poder escrever sobre vinhos de uma forma mais jovem, moderna e despretensiosa, sem me preocupar com aparências, dogmas e fórmulas prontas e quando a Dani me pediu para fazer uma coluna semanal eu pensei “essa vai ser uma excelente oportunidade!” porque o ICKFD é justamente um site jovem, moderno e despretensioso! Eu ainda estou longe de ser uma grande expert no assunto mas espero que minhas experiências possam ajudá-los a desmitificar o vinho! Para mim o mais importante é sempre, sempre e sempre gostar daquilo que se está tomando e acima de tudo se divertir!

Aqui na França existem muitos tipos de vinho e para os franceses toda hora é hora de beber vinho! Existem vinhos para comemorações, vinhos para o dia a dia, vinhos para jantares com os amigos, vinhos para ler um bom livro e refletir… Vinhos para todos os gostos e bolsos!

Na última sexta a Dani me falou “Escolhe um vinho pra gente!”. Eu abri a geladeira dela e… “Uau! Um Nuits Saint Georges!”. No Brasil este tipo de vinho varia em torno de R$200,00 a R$ 800,00! “Posso escolher qualquer um?”, perguntei. “Sim, o que você quiser!”. Quando o Paulo me contou quanto custou a garrafa aqui em Paris, eu engasguei: em torno de 15 euros (uns R$ 40,00). São muitos os fatores que fazem o vinho te custar um rim no Brasil mas não quero discutir isso, fica pra outro dia.

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Aqui na França existe também uma curiosa “obrigatoriedade”: não se abre uma garrafa de vinho sem ter um queijo para acompanhar. Se você beber só a taça de vinho as pessoas te olham na rua com aquela cara de “qual é o teu problema?”. Então, deixa eu falar um pouquinho desse tal de Nuits Saint Georges que nós degustamos e o queijo que escolhi para acompanhar.

O Nuits Saint Georges é um vinho feito na região da Borgonha na França, e ele chama Nuits Saint Georges porque ele é produzido na comuna de Nuits Saint Georges. Este vinho é feito com um tipo de uva somente, chamada Pinot Noir (pinô noár… haha!). A Pinot Noir é uma uva característica da Borgonha e esta é uma região que produz vinhos muito “elegantes”. Vocês vão ver que para se descrever vinhos é comum usar adjetivos que seriam usados para descrever pessoas! Quando eu digo “vinho elegante” na verdade eu quero dizer vinho leve, que te dá aquela sensação de ser uma bebida “aveludada”, redondinha na boca, que tem perfumes ou aromas finos… são simplesmente deliciosos!

Existem vários produtores dentro da região da Borgonha, na comuna de Nuits Saint Georges, que fazem vinhos chamados “Nuits Saint Georges”. O que nós provamos chama-se Nuits Saint Georges Les Lièvres 2010, produzido pelo Louis Max (e aqui eu vou um pirar um pouquinho na parte “técnica” dele), que tinha uma cor rubi clara, era límpido e brilhante e os aromas dele lembravam frutinhas vermelhas, como cerejas, morangos e framboesas. Os Pinot Noirs de Nuits Saint Georges podem ser vinhos mais encorpados, quero dizer, mais fortes na boca, mas a impressão que este vinho nos deu foi de ser um vinho mais leve, fresco, “animado”, algo que escolheríamos para uma noite quente de verão, uma reunião descontraída com os amigos. Aliás, o próprio vendedor aconselhou a servir este vinho em uma temperatura mais baixinha do que o normal para vinhos tintos, algo em torno de 15 a 16C. Mas é claro que estava muito longe de ser um vinho ordinário, era um super e excelente vinho! Quanto mais tempo o vinho passava aberto na garrafa e em nossas taças, melhor ele ficava! Novos aromas se revelavam, como uma leve baunilha que no início eu não tinha detectado! A safra 2010, quer dizer, o ano em que as uvas foram colhidas, foi excelente nesta região e segundo as anotações do produtor Louis Max este vinho pode ser guardado por mais de 5 anos que continuará evoluindo! Imagina só, beber um vinho desses de forma tão despretensiosa no Brasil!

Agora, sobre o queijo que escolhi… aqui na França cada vinho tem seu tipo de queijo e o que não falta também são queijos para todos os gostos e bolsos! Aliás, são tantos tipos de queijo e eu não conheço nem metade! No Brasil o mais comum é harmonizar vinhos, de qualquer procedência, com queijos italianos tradicionais como o parmesão, gorgonzola e provolone. De francês, colocam aí no máximo um Brie. Pessoalmente, eu acho que esses queijos italianos são muito salgados e fortes e não acompanham qualquer tipo de vinho. Honestamente, as harmonizações que presenciei no passado foram horrendas. Aliás, eu contraí até um certo preconceito de harmonizar vinho tinto com queijo porque sempre tive péssimas experiências, os taninos do vinho com o sal do queijo, aquela sensação metálica na boca… Cruzes! Sendo assim, comecei a pesquisar mais sobre as harmonizações de queijo e vinhos aqui.

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Para o Nuits Saint Georges eu escolhi um Camembert. O Camembert é um queijo francês da região da Normandia, bem mais delicado que as variedades italianas que mencionei acima. Ele tem uma casquinha branca por fora, por dentro é bem macio e aveludado, quando jovem tem um sabor mais leve e quando mais antigo é bem mais forte, mais complexo! Como o nosso vinho! A combinação deu super certo! O importante na harmonização é o seguinte: nunca escolher um vinho mais forte que o queijo, e vice-versa.

Eu falei de um tipo de queijo e de vinho bastante comuns e acessíveis aqui na França. Agora… como traduzir isso para a realidade brasileira? Um Camembert pode ser facilmente encontrado em qualquer mercado Pão de Açúcar no Brasil. Um Nuits Saint Georges porém, pode ser mais difícil e caro. Eu fiz uma rápida busca pelo Google e não encontrei importadores que tenham este exato vinho no Brasil. Como alternativa, existem vinhos da uva Pinot Noir elaborados em outras partes do mundo que são mais acessíveis e fáceis de encontrar em importadoras de vinhos ou revendedores pelo país. Podem ser da Argentina, do Chile, da África do Sul, dos EUA, entre outros! Claro que cada Pinot Noir carrega uma característica, um pouquinho da terra na qual foi elaborado, mas as características básicas e a essência são bastante parecidas.

Espero que tenham gostado! Até semana que vem!

Salut!