Antes de eu entrar para a faculdade de gastronomia eu somente conhecia dois tipos de queijos “azuis” e na verdade achava que era um tipo só: o italiano Gorgozola e o francês Roquefort. Tipo, um era o outro, só que tinha nome diferente em cada país. Mais alguém também? E, quando meu irmãozinho voltava pra casa depois de brincar um dia inteiro na rua a piada era:

     “-    Ô mãe! O irmão chegou!

–       Ah é? Eu não ouvi nada… como você sabe?

–       Sente só o fedozão de Roquefort!”

FOTOS: Paulo Cuenca – Instagram: @paulocuenca

 

Bom, depois de começar a estudar sobre a gastronomia mundial, descobri que isso não era somente falso mas também que em vários países da Europa existem diversos tipos desses queijos “azuis”. Aqui na Queijolândia por exemplo, a variedade é absurda! Dos mais leves e delicados aos que possuem sabores mais pronunciados e aromas… bom, aromas de pé com (muito) chulé. Mas por que “queijo azul?”. Bom, esses queijos durante a sua fabricação recebem uma injeção de fungos Pinicillium que por sua vez formam veias de cores que variam do azul ao verde. Dependendo da região na qual foram fabricados e da qualidade do queijo o sabor varia muito! E pra quem estava acostumado com o sal pungente do Gorgonzola, como eu, vinho nenhum ficava bom… novamente, o sal do queijo e o tanino do vinho (aquela substância presente na casca da uva responsável pela cor e pela sensação de amarguinho e adstringência na boca) quando combinados davam uma sensação metálica muito desagradável… pra completar, a pouca variedade de queijos azuis a bons preços no Brasil prejudicava um pouco a experiência.

Passando por uma loja de vinhos outro dia eu encontrei um vinho chamado Crozes Hermitage, um tipo bastante específico que eu já tive o prazer de provar mas não tinha lá muita intimidade. O Crozes Hermitage é um vinho da porção norte do Vale do Rhône na França elaborado com uma uva chamada Syrah, queridinha também de produtores de outras partes do mundo. A Austrália, por exemplo, adotou a uva Syrah como um dos seus símbolos e por lá eles preferem chamá-la de Shiraz. A uva Syrah geralmente produz vinhos mais robustos e encorpados mas a intensidade desses vinhos varia muito dependendo de onde a uva foi cultivada.

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O vinho que provamos, o Crozes Hermitage do produtor Cavede Tain, um dos maiores da região, tinha 12,5% de álcool, quando outros vinhos da uva Syrah ou Shiraz produzidos em outras regiões do mundo geralmente começam na casa dos 13,5% e, acredite, faz muita diferença! A porcentagem do álcool no vinho influencia na sensação de “peso” na boca ou no “corpo” do vinho. Quanto mais álcool (e taninos) um vinho tiver, mais encorpado! Este em particular que nós provamos estava no ponto, era da safra 2009, tinha aromas de especiarias, frutas vermelhas e frutas negras (tipo mirtilo), fez estágio em barricas de carvalho francês e sentíamos como se fosse um veludo na boca de tão equilibrado!

Uma das harmonizações clássicas para queijos azuis são os vinhos doces, ou vinhos de sobremesa, conhecidos como “Colheita Tardia” ou “Late Harvest”. Ao perguntar o que o pessoal preferia provar, “vinho de sobremesa ou vinho tinto?”, ganhou o vinho tinto por unanimidade! Mas eu estava disposta a provar um queijo azul diferente. Então virei a internet de cabeça pra baixo até que encontrei a combinação perfeita para o Crozes Hermitage: um queijo azul francês chamado Fourme d’Ambert!

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Quem? Pois é… anotei o nome num papel e levei comigo pra comprar o queijo porque não conseguia decorar o nome do bonito de jeito nenhum! O Fourme d’Ambert é um queijo da região de Auvergne, no Vale do Loire (estou falando que o Vale do Loire é meu mais novo melhor amigo de infância…). É fabricado com leite de vaca e leva o mesmo fungo do Roquefort, o Pinicillium Roqueforti, mas tem uma coloração mais amarelada, é mais macio e a massa é menos quebradiça. E o sabor dele é bem menos salgado; é delicado e aveludado na boca! O aroma porém, é bastante pungente (quer dizer, chulézão… não recomendo a degustação em ambientes fechados…). Ótima combinação para tintos e perfeito com o nosso vinho da vez, o Crozes Hermitage!

Vinhos originários da Apelação de Origem Controlada de Crozes Hermitages são produzidos por diferentes produtores e cooperativas no Vale do Rhône. Ou seja, você poderá encontrar muita variedade no mercado, a todo tipo de preço! Um produtor de Crozes Hermitage bastante conhecido no Brazil é o Paul Jaboulet Aîné. Se você não conseguir achar um Crozes Hermitage que te agrade, peça ao consultor de vinhos da loja de sua preferência por algum outro vinho que seja da uva Syrah, e de preferência, que não seja muito alcoólico! De repente um australiano mesmo ou algo da Argentina, que sempre tem excelentes barganhas!

vinhoazul2O Fourme d’Ambert poderá ser substituído por algum outro queijo azul que tenha uma qualidade similar. A variedade de queijos azuis aqui na França é muito grande e eu confesso que continuo ignorante nos queijos azuis e, pra ajudar, meu namorado não é lá muito fã desse tipo de queijo… pode? Azar o dele, daí sobra mais pra mim!