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“A simplicidade é o último estágio da sofisticação”.

Acho impressionante como esta frase atribuída ao renascentista Leonardo da Vinci pode ter mais de 500 anos de idade e ainda faz sentido nos dias de hoje. Tendências específicas à parte, com o café não é diferente. Embora muitos processos e equipamentos engenhosos tenham surgido nos últimos anos, a atual situação do mercado de cafés especiais indica que uma xícara de café puro pode sim ser um produto primoroso.

Há alguns meses falamos sobre as diferenças entre cafés especiais e cafés que são commodities. Todas os detalhes em todas as etapas refletem na qualidade do produto final e, claro, nos preços dos cafés especiais. A respeito de sofisticação e simplicidade, talvez o melhor exemplo de todos os tempos venha do Panamá, mais especificamente da Hacienda La Esmeralda.

julianolamur-cafeemcasa012-abejadecafe.comFonte: http://www.abejadecafe.com

De acordo com o World Atlas of Coffee, o café da variedade de cultivo geisha (uma das muitas subespécies dos arbustos de “coffea arabica”) surgiu na Etiópia, mas entrou na América Central pela Costa Rica, gostou do clima e logo se espalhou. Sua popularidade aumentou vertiginosamente a partir de 2004, quando uma fazenda do Panamá chamada La Esmeralda entrou em um concurso com um lote de geisha e surpreendeu a todos positivamente. Desde então, o mundo passou a prestar atenção nessa variedade de cultivo, aumentando em muito os preços e gerando um movimento global de produção e consumo. Só para termos uma ideia, por volta de 2007 todos os recordes foram quebrados quando os lotes desse café (vendidos ainda verdes, em leilões) chegaram a custar 130 dólares por libra, algo em torno de 520 reais por kg (na cotação do dólar da época, um sonho se comparada à atual), quase 100 vezes mais caros do que os cafés vendidos como commodities em larga escala!

julianolamur-cafeemcasa012-pilotcoffeeFonte: Pilot Coffee

Claro que não estou sugerindo que a sofisticação precise necessariamente estar ligada a preços astronômicos, mas gosto de ver essa situação como um caso em que tudo parece ter sido potencializado. Por exemplo, há um número quase sem fim de condições específicas para que se produza o geisha da maneira como se faz na Hacienda La Esmeralda. Desde as características do solo da região, as condições climáticas do local e de cada safra, a altitude em que as plantas crescem, a colheita manual, os rígidos critérios de controle de qualidade, o processamento minucioso… tudo contribui para produzir um café único ao paladar. Isso sem nem mencionarmos os hábitos de consumo que viram moda, que aumentam a procura e geram tendências de mercado, etc., etc.

Tantas particularidades fazem a diferença. Há pouco tempo a Mari Mori e eu tivemos a chance de participar de uma degustação aqui em Curitiba e posso dizer que mesmo com expectativas altas sobre o geisha de La Esmeralda, o resultado foi surpreendente. Provei em 3 ou 4 métodos diferentes e em todos encontrei uma bebida equilibrada, complexa e completa, doce, alegre e delicada. É até difícil de acreditar, mas tudo isso estava em uma xícara de café puro, veja só. De alguns frutinhos vermelhos colhidos numa fazenda do Panamá veio uma das bebidas mais incríveis que provei.

Parece que da Vinci sabia mesmo do que estava falando.

julianolamur-cafeemcasa012-arabicasimplesFonte: instagram.com/arabicasimples
Foto de topo: Randomitus