Foi quando comecei a estudar e trabalhar na gastronomia que me deparei com uma figura bastante curiosa: Jamie Oliver. Um cozinheiro inglês novinho, que falava enrolado, era bastante despojado e um pouco atrapalhado. A primeira vez que o vi foi no seu programa de culinária The Naked Chef, no canal GNT e foi simpatia a primeira vista. Não tem como não se encantar com ele! Sempre muito bem humorado, ele propaga a boa gastronomia de forma jovial e, o melhor de tudo, de forma acessível e muito despretensiosa. Aos seus olhos, todos podem ser bons cozinheiros! Para Jamie Oliver, cozinhar é fácil e necessário para cultivar uma vida saudável.

Assistir aos seus programas era sempre uma inspiração pois me permitia pensar que gastronomia profissional poderia ser algo mais leve, divertido, criativo e diferente das técnicas rígidas que eu aprendia na faculdade. Contudo, Jamie Oliver sempre foi muito criticado por outros chefs mais clássicos, e meus professores, por causa da sua postura e “falta de técnica”. Há quem diga que ele nem chef de cozinha é. Eu prefiro pensar que as coisas na gastronomia tendem a ser um pouco subjetivas e não existe um certo e errado. Existe somente o gosto pessoal. Para cada um de nós, a comida ou é boa, ou não é. Pouco importa se a cebola foi cortada em cubos médios, ao invés de brunoise, se o peixe cozinhou 1 minuto a mais do que deveria ou se o brigadeiro ficou com gruminhos (adoro!). jamie1Críticas à parte, eu pude assistir a evolução da carreira de Jamie Oliver. Ele já fez diversos programas de culinária para TV, publicou vários livros de receitas, tem uma associação que ajuda jovens carentes a se formarem cozinheiros, milita pela melhora da qualidade das merendas escolares no Reino Unido e abriu diversos restaurantes pelo mundo. Dito isso, pode-se pensar que todas as críticas são puro desdém, tamanho é seu sucesso comercial. Anos depois, a sua filosofia e simpatia continuam as mesmas.

 

Ir a um restaurante de um chef famoso parece sempre algo meio inalcançável. É sempre necessário fazer reserva com bastante antecedência e custa caro. Na cidade de Londres na Inglaterra temos ao menos dois ótimos exemplos de grandes chefs de fama internacional e seus restaurantes: Heston Blumenthal do Fat Duck e Gordon Ramsay, o chef malcriado e esquentado do Pétrus. Porém, eu visitei Londres com um orçamento apertado e não coloquei grandes restaurantes na minha lista. Fui ver duas amigas nesta cidade e uma delas está morando lá por causa de seu trabalho e já conhece Londres muito bem. No meio de uma conversa eu comentei que adoraria jantar em um restaurante do Jamie Oliver algum dia. Foi aí que ela me disse que conhecia o Jamie’s Italian no Covent Garden em Londres, que era um restaurante muito bom, de preços acessíveis e que não precisaríamos fazer reserva alguma. Quase não acreditei que finalmente conheceria um restaurante do Jamie Oliver! Topei o programa na hora!

 

O Jamie’s Italian que visitei (pois existem outras unidades) foi o do Covent Garden, muito bem localizado e próximo das estações de metrô Covent Garden e Leicester. Fomos em uma segunda-feira por volta das 20h e foi necessário aguardar na espera por cerca de 15 minutos somente. A primeira impressão foi muito boa pois o ambiente traduz muito bem a filosofia de Jamie Oliver. O Jamie’s Italian é aconchegante, tem uma decoração jovial e alegre e nota-se que os detalhes foram muito bem pensados.

jamie2Quando chego em um restaurante a primeira coisa que faço é pedir licença às minhas companhias para ir ao toilet. Acho que toilets impróprios e sujos para os clientes gritam que a gerência e/ou chef não dão a mínima para o estabelecimento. O do Jamie’s Italian, além de lindo, estava impecável.

 

Logo chegou o nosso garçom com os cardápios e cartas de vinho. A carta de vinhos oferece opções em taça e, obviamente, em garrafas a preços justos. Eu pedi uma taça de Montepulciano d’Abruzzo que custou cerca de 5 libras esterlinas, mas as demais opções custavam entre 4 e 7 libras. De entrada, minhas amigas e eu pedimos para beliscar o “Nachos de abóbora com parmesão e salsa picante”, que na verdade eram ravioles de massa bem fininha, recheados com puré de abóbora e fritos por imersão, salpicados com parmesão ralado e servidos com um molho de pimenta a parte (cerca de 6 libras). Estava uma delícia e foi uma excelente escolha para dividir.

 

De prato principal eu pedi um Risoto de Trufas Negras, porque eu não posso ver nada no cardápio com  “trufas” que não penso em outra coisa! O cardápio também tinha opções de carnes e peixes, por 12 libras o prato, aproximadamente. O meu risoto estava bem leve, no ponto de cozimento correto (“al dente”) e cremoso. Pro meu paladar faltou somente um pouquinho de sal, mas uma das minhas amigas pediu o mesmo prato e ela achou que pra ela estava ideal. Os risotos e as massas podem ser pedidos em dois tamanhos diferentes, pequeno (cerca de 6 libras) e grande (12 libras). Nós pedimos o pequeno e achamos o tamanho ótimo. A outra amiga estava numa pegada mais light e pediu uma Salada de rúcula com pêras com presunto cru (cerca de 11 libras), que estava linda, bem servida e foi aprovadíssima.

 

jamie3De sobremesa, nós dividimos uma mousse de chocolate com Vin Santo, com sorvete de zabaglione e biscoitos de amêndoas. Para quem não conhece, o Vin Santo é um vinho licoroso tradicional italiano, da região da Toscana, feito geralmente com as uvas Malvasia e Trebbiano que quando colhidas são postas em esteiras para desidratar e concentrar os açúcares, resultando em um vinho, bem docinho e bastante apreciado, excelente para ser servido como acompanhamento de sobremesas, embora os italianos também utilizem este vinho para elaborar sobremesas mais requintadas. A mousse estava bem densa e saborosa, porém ela foi coberta  com um creme muito rico em gordura, o que achei dispensável. O sorvete de zabaglione estava uma delícia e bem leve e os biscoitos de amêndoas, chamados de “biscotti”, estavam divinos e eu poderia ter comido uma caixinha inteira!

Mas, como nada é perfeito nesta vida, o serviço foi um pouco desatento. O garçom estava indo muito bem até o final do jantar, quando ele esbarrou no copo de água da minha amiga e derrubou metade da água na mesa. Um acidente, claro, mas o problema é que hora nenhuma ele veio secar a mesa! E ficou o tempo todo ao nosso lado. Minha amiga não reclamou nem nada, mas eu achei uma baita bola fora. No entanto, a experiência foi bastante positiva, eu recomendo bastante uma visita ao Jamie’s Italian e com certeza o visitarei novamente na próxima vez que eu for à Londres!

O Jamie’s Italian que eu visitei foi o do 11 Upper St. Martin’s Lane, em Covent Garden.