Essa semana, a revista norte-americana Time divulgou o Panteão da cozinha, uma lista com os nomes mais influentes dos últimos tempos. Os editores escolheram 13 pessoas – entre chefs, críticos de gastronomia, produtores e escritores – mundiais que estão aptas a ocuparem os postos de deuses da gastronomia. Pois bem. A questão é: em que lugar estão as cozinheiras? Ah sim, há quatro mulheres na lista da Time, mas nenhuma faz parte da “árvore genealógica dos chefs”. Isso mesmo. Nenhuma. Pior, não se vê nenhuma delas na capa da revista e nem na do clubinho reunido. E sobre a expressão, não fui eu quem inventou isso. O próprio editor da Time, Howard Choua-Eowan, disse que “há algumas chefs boas, mas infelizmente elas não são tão influentes como os homens. Afinal, continua sendo um clube dos garotos.”

deuses da comida

Há uma ideia instituída que mulheres boas na cozinha são as que fazem comida caseira, bem longe do profissional. A minha, a sua mãe. Algumas ganham certo destaque quando têm “sorte”, como a apresentadora de televisão Nigella Lawson, para citar a mais atual. Técnica, criações e habilidades são coisas para eles, os verdadeiros chefs. Eu queria saber quando é que isso surgiu. É provável que tenha vindo junto com os 20% a menos nos salários das mulheres, ou mesmo quando inventaram que mulher decente é mulher que trabalha em casa. “Ah, mas isso tá mudando! Você não vê que tem um monte de chefs de cozinha mulheres?”, você vai me perguntar.

Claro que sim. Claro que há cozinheiras renomadas, a começar pela brasileira Helena Rizzo, que ficou com seu restaurante (Maní) na lista dos 50 melhores do mundo pela revista britânica Restaurant, e ganhou também o prêmio Veuve Clicquot de melhor Chef Mulher da América Latina em 2013. Para dar um exemplo um pouco mais perto dos EUA, já que a Time está situada lá: Barbara Lynch, chef super conhecida em Boston, que tem tantos restaurantes quanto David Chang, não faz parte da lista (Chang faz). Quando questionado sobre isso, Choua-Eowan afirmou que apesar de ser fantástica, Lynch é muito “local”. Em Boston, uma das maiores cidades dos EUA.

Para esclarecer a dúvida do porque não há mulheres na lista dos chefs, vou colocar as aspas de Choua-Eowan para você tirar as próprias conclusões a respeito do editor. “São só homens porque eles tomam conta de si mesmos. As mulheres realmente precisam de alguém para, por assim dizer, cuidar umas das outras.”

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Aqui vai a lista dos deuses da comida, segundo a Time (essa é uma tradução com alguns pitacos meus):

  1. Andrea Petrini. É um crítico de gastronomia italiano que mora em Paris. É conhecido por revelar os talentos de jovem chefs. Os eventos que ele organiza são formas de aproximar pessoas que nunca teriam a oportunidade de se conhecer.
  2. Yottam Ottolenghi and Sami Tamimi. Ambos os autores nasceram em Jerusalém, em lugares opostos da cidade dividida: Ottolenghi é judeu e Tamimi é árabe. Mas os dois produziram uma compilação excelente (Jerusalém) sobre a gastronomia da cidade sagrada.
  3. Sergio Nuñez de Arco. O empresário boliviano levou a quinoa, um grão indígeno hiper saudável, aos EUA. As respostas a essa atitude vieram rapidamente. Bem, aposto que foi por isso que você conhece a quinoa hoje em dia.
  4. Amrita Patel. Ela coordena o crescimento contínuo da indústria do leite na Índia e o seu sistema de distribuição. O resultado é um progresso sócio-econômico, antes inimaginável, da nação indiana.
  5. Michael Pollan. “Coma comida. Não muita. Escolha principalmente plantas”. Essas palavras são dele e são três simples mandamentos do movimento da alimentação sustentável. Seu livro são as escrituras.
  6. Alex Atala, René Redzepi and David Chang. São os três melhores dos melhores e mais conhecidos chefs do mundo – e também melhores amigos. A amizade deles e a mente aberta revelam o novo e mais acessível mundo da “haute cuisine” (alta gastronomia), um passo importante para além do reino secreto e egoísta da cozinha.
  7. Albert Adrià. Logo, ele vai comandar cinco restaurants na mesma região em Barcelona – e literalmente corre de uma rua a outra para liderá-los. Mas ele é mais do que um bom chef, que é a pessoa que comanda a cozinha. Além disso, ele provavelmente é o melhor cozinheiro, um verdadeiro mágico na cozinha que consegue juntar inspiração e execução sem problemas.
  8. Wan Long.  Era soldado e agora comanda a maior empresa de processamento de carne da China, um país que ama seus porcos. E para ajudar a saciar a fome do Oriente Médio por carne de porco (saudável e confiável) ele está comprando Smithfield Foods, o maior produtor desse alimento dos EUA.
  9. Dan Barber. Barber tenta começar uma consideração filosofia e prática da forma de cultivar plantas, todo o caminho das sementes até o resultado final, como uma maneira de saber se o alimento que comemos é, além de mais saboroso, saudável.
  10. Aida Batlle. Quando criança, ela fugiu da cidade nativa de El Salvador para crescer em Miami. Quando retornou, transformou as plantações de café da família para uma nova apreciação das qualidades específicas do café e dos seus grãos, tudo parte de uma nova onda de sabores que vinham desde o cuidado de assar. Ela nos ensina a deliciar lentamente – não instantaneamente – o café.
  11. Vandana Shiva. Treinada para ser física, ela é a “praga” que maltrata a grande agricultura e os defensores de alimentos geneticamente modificados. Suas aparições carismáticas e discursos ajudam a energizar a batalha contra os chamados “Franken-foods”- apesar dos argumentos de que os alimentos transgênicos podem realmente ajudar os pobres e famintos.
  12. Ertharin Cousin.  A mente por trás do United Nation World Food Programme é responsável por alimentar mais pessoas do que qualquer outra pessoa no planeta. Mas ela faz isso de um jeito que satisfaz as pessoas – não apenas nutrição básica.
  13. True World Foods. O sushi que você come pode vir a partir deste fornecedor misterioso, mas onipresente, talvez o maior fornecedor de peixe cru em todos os EUA. Para aumentar o mistério, a empresa tem ligações com a controversa Igreja da Unificação, fundada pelo falecido reverendo Sun Myung Moon.

Algo me diz que o machismo impera. Ainda. Estamos em 2013, mais de dois mil anos de “civilização”! Nossa, que grande avanço.

E você, o que pensa da lista dos deuses da Time?