Por mais estranho que pareça, nesse paraíso perdido também conhecido como Kuna Yala, existem lugares em transição para o ambiente urbano. Uma das ilhas mais povoadas da região são Nargana e Coração de Jesus – juntas, elas têm mais de 1000 habitantes. As duas são ligadas pela ponte de Anai Mued e por isso são tão parecidas.

Diferente das outras ilhas que possuem pouquíssimas construções, essas ilhas irmãs já têm escola, hospital, banco, bares, vendinhas… O local lembra comunidades ribeirinhas bem simples e rústicas, sabe?

Para vocês terem ideia, essas são 2 das 4 ilhas que possuem eletricidade. Lá também tem uma antena de telefonia que disponibiliza sinal de celular, algo praticamente impensável em outras áreas.

Pelas fotos já deu pra notar que o lugar não é bonito, né? Realmente não é a beleza das ilhas que atraí os turistas. Nós, por exemplo, fomos parar lá para reabastecer o veleiro com mais comida, água e bebidas. Nargana, principalmente, é um importante entreposto comercial da região.

Um ponto que chamou bastante a minha atenção por lá foi, infelizmente, o tratamento dos animais. Já tinha comentado nesse post sobre o macaquinho preso há mais de 2 anos que encontramos em Nargana, mas até os cachorros ficam enclausurados.

Apesar do local possuir uma central de lixo, essas foram as ilhas mais sujas que visitamos em Kuna Yala e, diferente das outras áreas, é o lixo produzido ali que é o maior problema e não a sujeira trazida pelas correntes marítimas.

Como as ilhas estão passando por esse processo de urbanização, lá você encontra muitos produtos industrializados e é claro que a sujeira produzida é consideravelmente maior.

Outro fato curioso da região é que quase todas as casas possuem televisões ou algum outro eletrodoméstico – mesmo as sem piso (com areia) ou de chão batido. Essa mistura nos impressionou bastante.

É realmente um lugar que perdeu a forte ligação com a natureza, ao mesmo tempo em que não pode ser considerado um ambiente urbano. Ficou claro, por exemplo, que o local não tem trabalho suficiente para a quantidade de pessoas que vivem lá. Os únicos empregos são nos “grandes prédios” (hospital, escola e banco) e nos pequenos comércios da região.

Além de perder a conexão com a natureza, as tradições kuna também estão sendo deixadas de lado. É raro, por exemplo, encontrar mulheres com trajes típicos. Uma das poucas senhoras que encontramos vestida da maneira tradicional pediu 10 dólares para ser fotografada. Parece mais uma coisa para “turista ver”, sabe?

Agora só nos resta saber como serão os próximos anos, porque se a região já está perdendo a essência kuna agora, talvez em pouco tempo a cultura realmente não esteja mais presente por lá.