Olha, se tem uma coisa que chamou a nossa atenção na viagem a Kuna Yala (San Blas) foi a cultura dos Kunas. Tanto quanto as paisagens deslumbrantes, entender um pouco mais sobre os moradores dessas ilhas foi uma experiência pra lá de especial. Compartilhei um pouquinho disso com vocês no meu stories, mas decidi fazer um post mais detalhado aqui no site para que entendam ainda mais.

Antes de qualquer coisa, é bom falar que quando você entra em Kuna Yala você realmente entra em território kuna – existe até uma fronteira onde você primeiro passa por um fiscal do governo panamenho e depois por um kuna. A palavra mais importante nesse primeiro momento é Noegambi, que significa oi e tchau. Mas mesmo que você não fale irá perceber a hospitalidade e alegria dos habitantes que é realmente impressionante.

No total são 20.000 kunas na região, mas apenas 3.000 vivem nas ilhas. A grande maioria vive na floresta mesmo, então, já deu para entender que a relação desse povo com a natureza é bem diferente da nossa, né?

A base alimentar é basicamente focada na coleta. Coco, frutos do mar e arroz representam quase que 100% dos pratos típicos da região – se você for vegetariano como eu, aconselho a levar alguns grãos e legumes do Panamá. Apesar de simples, o Paulo comeu excelentes pratos por lá, como foi o caso de um peixe preparado pelo Patrício em uma das ilhas de Coco Bandero – logo mais entrará um post completo falando mais sobre esse complexo de ilhas 😉

Apesar de existir, sim, uma harmonia entre o povo e a natureza, o maior contato com turistas vem afetando Kuna Yala. A criação de animais, por exemplo, tem se tornado mais comum em algumas áreas, mas os kunas ainda não sabem como funciona toda essa logística. O primeiro ponto é que nas ilhas quase não tem alimento suficiente para os moradores, quanto mais para os animais.

O segundo ponto é que os habitantes pensam que quanto menos o animal andar, mais rápido ele vai engordar. No entanto, o que vimos por lá eram animais visivelmente subnutridos e presos por cordinhas e correntes minúsculas. Até mesmo porcos e galinhas :/

Essa relação diferente com os animais também ficou clara com os cachorros. Os gatos ficavam bem soltos, mas os cachorros estavam sempre presos. Esse foi um dos choques culturais, afinal, os animais são tratados de uma forma bem diferente do que a que estamos habituados, né?

O que mais nos impactou foi um macaco que está preso por uma corrente há mais de 2 anos. Encontramos com ele na ilha de Nargana, uma das mais povoadas da região. Além de ficar preso, o bichinho é alimentado com salgadinhos e até toma coca-cola. Muito, mas muito triste.

Apesar desse lado negativo, dá para ver que a ligação dos kunas com a natureza é bem grande mesmo. O tema está presente até na religião e espiritualidade. Atualmente, a maior parte da população é cristã, o que se fortaleceu com a chegada dos europeus. Entretanto, a base da cultura kuna está nessa ligação com a natureza e, mesmo os cristãos, falam sobre isso.

O que nós notamos na viagem é que o número de neopentecostais está aumentando nas ilhas, assim como os mórmons. O interessante é que na época em que fomos tinha até um grupo de 32 mulheres kunas que voltaram do Panamá com a missão de evangelizar os habitantes.

Já que falamos de religião, por que não falar sobre as tradições? De imediato dá para notar que as mulheres usam muitos adornos. A partir do momento da menarca (primeira menstruação), as meninas usam dezenas de pulseiras de miçangas multicoloridas no antebraço e do calcanhar até o joelho. Essas pulseiras são as winis e suas cores vibrantes deixam tudo mais bonito – eu e o Paulo até trouxemos duas!

Outro adorno que chamou a minha atenção foi o anel de ouro que algumas mulheres usavam no septo. Esse “piercing”, por assim dizer, é usado só depois do casamento.

Uma outra coisa que, sob o nosso ponto de vista, é bem diferente por lá é a maneira que eles encaram a privacidade. Lá todo mundo mora junto e não tem essa ideia de “nova casa” para recém-casados.

Olha, mas se você achou tudo até aqui bem interessante é porque ainda não sabe o que achamos de mais diferente na cultura kuna. A sociedade é matriarcal, ou seja, as mulheres que lideram – inclusive são elas que fazem as molas, um dos itens artesanais mais típicos de Panamá e o principal artigo produzido por kunas. Esses tecidos bordados com cores vivas e desenhos lindos estão nos trajes típicos das mulheres e em diversos outros itens.

A mulher é realmente muito valorizada e importante para os kunas e, o mais surpreendente é que lá, se o casal tiver 4 filhos homens, o 4º filho é tratado como mulher pelos próprios pais. Homossexuais e bissexuais são muito bem aceitos na cultura e é, inclusive, bem comum encontrar transexuais por lá. Acho que nunca tinha visto uma cultura lidar tão bem com essa questão que, para começo de conversa, nem deveria ser polêmica, né?

Apesar dessa questão da sexualidade ser bem aceita, o contato mais intenso com os turistas tem provocado mudanças até mesmo estruturais na região. Estão acontecendo transformações tanto no âmbito econômico – porque os homens também passam a contribuir financeiramente – quanto no social.

Os impactos dessa “interação” ficam bem explícitos em algumas ilhas, como é o caso de Nargana e Coração de Jesus. Lá você encontra muitos industrializados, celulares, televisões… É como se algumas áreas estivessem na transição para o urbano. Com isso, é claro que as pessoas passam a se comportar de outras formas. Os adornos e trajes típicos, por exemplo, são cada vez mais raros.

Nós não podemos afirmar que essas são mudanças apenas negativas ou positivas, mas fato é que a cultura kuna está mudando – e rápido.